Poesias dos Amigos

Patricia Montenegro


 

 

 

Chibata, Chicote,e Açoite

SIMONE PINHEIRO



Marcados a ferro e fogo
na pele lisa, brilhante,
narrando a história de um povo
que soube seguir adiante,
matando no peito as injustiças
sofridas de boca calada,
salgando as costas feridas
dos açoites, das chibatadas.
Negro da cor da noite,
em senzala, acorrentado,
nascido de negra bonita,
pelo branco maltratada.

Com altivez e coragem
próprias, de quem sofreu,
carrega nas costas largas
as dores todas do mundo,
sem que por um segundo
se ouça um gemido de dor.

Negro, foi o destino
cruel e traiçoeiro,
deste povo guerreiro
que mesmo se curvando
às regras da Casa Grande,
manteve no peito acesa
a chama da esperança,
e como qualquer criança,
não desistiu de lutar.

O patrão branco, recatado,
devoto de desconfiar,
era pai de muito negro,
com lágrimas derramadas
em noites de amedrontar.

Mas, negro nascido em senzala,
não podia dizer não,
cavava a própria vala
chamando de pai o patrão.
Negro, domado a castigo,
trazia desde o berço,
as amarras do destino
traduzido em
chibata, chicote e açoite!...

Data: 19/09/03

 

 

 


 

 

Passageiros da Agonia
Simone Borba Pinheiro


Acorda no meio da noite,
o homem desesperado
com o choro intermitente,
do pequeno filho amado
que sem ter o que comer,
chora a fome na barriga,
vazia e inchada de dar dó.

No rosto da mulher amada,
naquele sertão perdido,
do resto do mundo esquecido,
nenhuma lágrima corre
pois, passado tanto tempo
de promessas não cumpridas,
secou junto com a esperança
de dignidade e fartura
daquele povo sofrido.

Sai o dia, cai a noite,
no sertão entristecido,
onde o povo reunido
reza por chuva abundante,
pra molhar a terra torrada
e fartar a mesa vazia,
acabando de vez com a fome,
dessa gente tão sofrida,
que pela vida passa,
sentindo na própria pele o que é ser,
um passageiro da agonia!...

24/07/03




 

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